"A criança com deficiência que vai à escola pela primeira vez" - Importância da representatividade na literatura infantil

Na crónica "A criança com deficiência que vai à escola pela primeira vez", destaca-se a importância da representatividade na literatura infantil e reflete-se como esta pode ser uma peça imprescindível na construção de uma sociedade mais inclusiva. Foi por isso que Tânia e Marta (ambas mães de crianças com deficiência), escreveram e publicaram livros que procuram promover a empatia, a compreensão e a aceitação das diferenças desde a infância.

Esta reflexão parte da leitura de uma crónica publicada na revista Ímpar/Público. A crónica dá conta da necessidade que duas mães sentiram de escrever sobre as diferenças dos seus filhos na altura em que estes iniciavam o seu percurso escolar. Cada uma delas, escreveu um livro, com a intenção de facilitar a inclusão. São eles:

O Pardalito Gonçalinho (2022) de Tânia Vargas, com ilustrações de Vanessa Ribeiro - escrito "precisamente para incorporar a experiência do filho numa história que promovesse a inclusão" (Soares 2022).

A Primeira Aula (2023) de Marta Soares, com ilustrações de Catarina Rodrigues - valida, segundo a cronista Andréia Azevedo Soares (2022), "a curiosidade [sobre a diferença], dissolve o constrangimento e adianta respostas que facilitam o entendimento mútuo". Responde, portanto, aos questionamentos das crianças.

Apesar da pertinência de toda a crónica, esta reflexão incide especificamente no último parágrafo da mesma, que passo a citar:

A representação das crianças com deficiência nos produtos culturais ocupa um papel significativo no desenvolvimento infantil. Isto porque ajuda os pequenos leitores a compreender melhor a realidade que os rodeia, oferecendo-lhes a oportunidade de cultivar a empatia e o respeito pelas diferenças, sejam elas físicas, funcionais, religiosas ou culturais. Gosto de pensar que esta multiplicidade de narrativas pode ajudar a tornar o primeiro contacto com a escola mais rico e seguro (Soares, 2022).

A escolha por este parágrafo deve-se, fundamentalmente, à vontade de refletir sobre a diversidade de uma forma mais ampla, que não se encerre em categorias ou tipologias. De facto, este excerto do texto incide sobre a importância da representatividade da diferença nos produtos culturais, e olha para estes como uma ferramenta essencial na construção de uma sociedade mais inclusiva e empática.

Ao longo das aulas de Educação Inclusiva e Diferenciação Pedagógica, discutimos maneiras de abordar a diversidade para cultivar o respeito pela individualidade de todos. Um dos exemplos falado foi o livro No meu bairro. Como esse, muitos outros livros se podem constituir como recursos úteis para promover a compreensão da diversidade, para celebrar e valorizar as diferenças.

Mas como é que isso, realmente, acontece? Como podem os livros (ou outros produtos culturais) contribuir para a compreensão da diversidade? Contactar com a diferença e darmo-nos conta da pluralidade existente (neste caso, de pessoas), amplia a nossa mundividência. Uma criança que é exposta à diversidade desde cedo, cresce com uma perspetiva mais alargada daquilo que a rodeia por oposição a uma que não tem essa oportunidade. Tendo como referência os estudos de Rodrigues e Oliveira (2009), Costa (2022) destaca, neste particular, a importância da literatura para a infância, na medida em que esta (por via de uma discussão dirigida) pode contribuir para o desenvolvimento de competências de interação social — que com certeza ajudarão a criar ambientes escolares mais inclusivos, respeitosos e enriquecedores para todos. Corroboram esta ideia, Coronha e Simões (2023), para quem a literatura infantil oferece uma oportunidade valiosa para explorar e compreender realidades diversas, dando a possibilidade de aprender como é que os outros vivem.

A presença de personagens com diferentes características na literatura infantil desempenha um papel crucial na formação da identidade das crianças, uma vez que, quando se vêm representadas nas histórias, encontram pontos de conexão, identificação e validação das suas próprias experiências (Souza & Rodrigues, 2021). Por outro lado, quando as crianças não têm conhecimento ou contacto prévio com uma dada realidade, "essa mesma literatura pode levar [os] seus leitores à compreensão e à aceitação de indivíduos que são diferentes" (Souza & Rodrigues, 2021, p.125).

"Gosto de pensar que esta multiplicidade de narrativas pode ajudar a tornar o primeiro contacto com a escola mais rico e seguro",  é com esta frase que Andréia Azevedo Soares termina a crónica. Concordo com a afirmação anterior e considero que a escola tem mesmo que ser um lugar de segurança, um espaço para o crescimento e desenvolvimento emocional e social onde as diferenças não nos afastam, mas sim, nos aproximam.

Por tudo aquilo que foi sendo mencionado, e se queremos contribuir positivamente para o futuro da educação, torna-se imperativo que promovamos ativamente princípios inclusivos e incentivemos à compreensão mútua. Não nos fiquemos pelas intervenções nos contextos educativos, sejamos também um veículo de mudança na sociedade em geral. Temos a possibilidade de agir como agentes de transformação para além das fronteiras das salas mas isso implica que pratiquemos esses valores nas nossas próprias interações diárias.

Socialmente, beneficiaremos todos se houver uma maior proatividade na construção de uma sociedade mais inclusiva e harmoniosa.

Os livros escritos por Tânia Vargas e Marta Soares

    Referências bibliográficas

Coronha, M. & Simões, A. (2023, setembro 6). (H)À Educação: (H)À representatividade social na literatura infantil? https://www.ua.pt/pt/noticias/13/83327

Costa, C. (2022). Respeitar as diferenças através da literatura para a infância [Dissertação de Mestrado, Politécnico de Coimbra]. Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal. https://hdl.handle.net/10400.26/40521 

Soares, A. (2023, setembro 14). A criança com deficiência que vai à escola pela primeira vez. Público. https://www.publico.pt/2023/09/14/impar/cronica/crianca-deficiencia-vai-escola-primeira-2063326

Souza, R. & Rodrigues, S. (2021). Tematização da Deficiência na Literatura Infantil — Olhares Sobre as Personagens. Revista Lusófona De Estudos Culturais, 8(2), 119–138. https://doi.org/10.21814/rlec.3477 




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